29 agosto 2009

Filme: Um longo dia de noivado ( Com Audrey Tatou)

Jean-Pierre Jeunet volta a trabalhar com Audrey Tautou depois de "O Fabuloso Destino de Amélie". Tal como em Amélie, este filme parece passado numa outra dimensão. É difícil explicar o porquê, mas o mundo dos filmes de Jeunet parece sempre mais vivo, mais vibrante que o mundo real, as suas personagens transbordam energia, e mesmo sendo muitas vezes caricaturadas, são sempre incrivelmente densas e complexas.
Num cenário contrastante, a 1ª Grande Guerra, Jeunet apresenta-nos a fragilidade e a ternura de uma jovem debilitada fisicamente, em contraste contínuo com as agruras e a agressividade de um conflito em ebulição. Fotograficamente o filme é soberbo, as imagens são impregnadas de uma colorida poesia visual, que paradoxalmente embelezam a atmosfera de uma guerra, que se sabe, devastadora.

Filme: Quero ser John Malkovich

Por mais que se tente resumir a trama de Quero Ser John Malkovich em alguns parágrafos, a tarefa revela-se impossível. O roteiro é tão repleto de revelações e reviravoltas que, em certo momento, as surpresas transformam-se em meros preâmbulos para as seguintes. Em certo momento, para se ter uma idéia, o próprio Malkovich atravessa o portal que conduz para o interior de sua mente - e o que ele vê é uma das melhores seqüências do filme. É realmente impressionante que um roteiro complexo e arrojado como o de Quero Ser John Malkovich tenha encontrado meios de chegar às telas, já que várias coisas poderiam ter dado errado no processo principalmente o excesso de inteligência (sempre um perigo em Hollywood).
O filme mais maluco que eu já vi, resultado de um roteiro totalmente insano e imprevisível, situações absurdas (e hilárias) e atuações igualmente absurdas (e igualmente hilárias). É uma pérola do cinema, um primor de roteiro e originalidade.
Quando você acha que o estoque de loucuras acabou, Spike Jonze descarrega mais um monte, deixando o espectador zonzo de tantas reviravoltas contidas no roteiro. Com certeza, a parte mais hilária do filme é quando John Malkovich entra em sua própria mente, e vê um mundo habitado somente por John Malkovich.
Além de todas essas situações incríveis, o filme ainda dá início à uma inteligente dicussão: e se você pudesse ser outra pessoa?

Filme: El Bufalo de la noche (Guillermo Arriága)

Parte da nova geração mexicana está aqui em ação. Arriaga e Aldana, no roteiro e direção; Diego Luna no elenco.
Gregorio é um jovem esquizofrênico de 22 anos, perdidamente apaixonado por Tania (Liz Gallardo) e que tem em Manuel (Diego Luna) um grande amigo. Enquanto Gregorio entra e sai de hospitais psiquiátricos, Tania e Manuel vivem um romance às escondidas. Quando Tania decide romper com Gregorio e ficar com Manuel, a amizade entre eles também é rompida. Tempos depois os médicos dão alta a Gregorio, o que faz com que Manuel tente se reconciliar com ele. Aparentemente o reencontro ocorre sem problemas, mas dois dias depois Gregorio se suicida, dando um tiro na cabeça. Tânia e Manuel recebem a estranha herança deixada por Gregório, uma caixa contendo fotos e cartas. E que dá início à trip na qual culpa e loucura não deixam de se misturar em coquetel explosivo.

Filme: Quando Nietzsche chorou

Nietzsche, é um dos maiores gênios da história da humanidade, Breuer não foge muito disso e quanto a Freud, bom , isso todo mundo já sabe.
Na Viena do século 19, o médico Josef Breuer (Ben Cross) conhece o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (Armand Assante), pois o intelectual está passando por grave crise de enxaqueca e tem tendência suicida. Como não quer ser ajudado porque seus livros não são reconhecidos e, portanto, não tem dinheiro para pagar o tratamento, os dois fazem um trato. Com ajuda de seu estagiário, o psicanalista Sigmund Freud (Jamie Elman), Josef tenta ajudar e ser ajudado por Nietzsche e utiliza a "terapia através da fala". O filme apresenta uma história dramática, que fará o espectador conhecer mais da psicanálise e, quem sabe, se emocionar pelo mesmo motivo que fez Nietzsche chorar.

Filme: Vênus

Girl put your records on de Corine Bailey Rae é o carro chefe da trilha sonora do filme. O diretor Roger Michell dá dignidade ao tema, que poderia descambar para o mau gosto nas mãos de um cineasta menos sutil. E como já é costume nas produções britânicas, o desempenho do elenco é um capítulo à parte, com destaque para Peter O'Toole, que faz a platéia acreditar que ele tenha muito mais que seus atuais 74 anos. Não por acaso, o papel rendeu ao veterano ator Peter O’Toole sua oitava indicação ao Oscar. Ele é a alma do filme, tudo dele parte e tudo para ele converge. Mas a garota indesejada por todos - e só querida por ele, para quem tudo está indo para o fim - também é vivida por uma excelente atriz jovem, Jodie Whitaker. E a presença de Vanessa Redgrave como a ex-mulher de Maurice torna o filme ainda mais pungente, mostrando-a também idosa, mas magnífica. É para guardar nas retinas a imagem de o´Toole e Philips dançando na igreja. E a cena em que a garota autoriza que ele toque ao menos a sua mão. E de cenas sensíveis assim o filme está repleto. Vale a pena conhecer esse belo trabalho do diretor Roger Mitchell. Vênus é um filme comovente por tratar da velhice sem máscaras. O clichê de que juventude é um estado de espírito é desmentido pelo realismo do filme, que, a despeito disso, não é cruel. Ao contrário - é um filme carinhoso, que jamais deixa de tratar com dignidade e compaixão seus personagens, uma dignidade e uma compaixão que não exclui os aspectos terríveis, as dores, as mazelas dos idosos. Vemos Peter o´Toole como Maurice e Leslie Philips como Ian no auge de seu talento. Podemos estar vendo-os pela última vez, devido à idade em que se encontram, mas nada disso impede que os vejamos como verdadeiros símbolos da melhor arte dramática inglesa.

Filme: Desejos de liberdade (Provoked)

Uma bola de neve de tragédias vai acertar em cheio a vida de Kiranjit Ahluwalia. Ao se casar com Deepak, ela imagina ter encontrado o homem de sua vida. Mas ele, aos poucos, começa a mudar de comportamento, dedicando-se à bebida e a outras mulheres. Não demora para começar a espancar a esposa, que acaba por matá-lo. Acusada de ter premeditado o crime, ela terá de recorrer à ajuda de uma Ong especializada em vítimas de violência doméstica, para provar inocência. Em momento algum o filme absolve Kiranjit de ter matado seu marido, apenas abraça as inúmeras mulheres que sofrem com a violência de homens que juraram amor eterno. Já no final, Kiranjit diz que são as mães quem criam seus filhos, então cabe a elas ensinar o respeito às mulheres. A mãe de Deepak testemunhou os ataques do filho, mas em julgamento, desmentiu as acusações da nora.
Apesar da história forte, Provoked é um filme mediano. Assemelha-se muito aos filmes feitos para a televisão. Alguns diálogos são artificiais, há redundância em certas cenas e sempre foca os grandes olhos verdes de Aishwarya (o que não é tão ruim assim), contudo vale assistir. Seja por ser um relato inspirador, seja para nos lembrar que alguém próximo pode estar sofrendo as mesmas coisas.

Filme: Amores Brutos (Alejandro Gonzáles Iñárritu)

Amores Brutos iniciou uma trilogia de brilho e confirma a hipótese de que raros são os mestres que conseguem repetir a grandiosidade da obra-prima. Alejandro Gonzáles Iñárritu é um cineasta mexicano de 45 anos. Foi descoberto em 2000, com a produção de Amores Brutos (Amores Perros), um filme – com o perdão da simplificação – sobre a perda, os amores, a esperança e os problemas nos relacionamentos. O sucesso surpreendeu: era uma produção latina, com atores latinos e recursos latinos e, ainda assim, ganhou a crítica e o público internacional. A partir daí, Iñárritu virou destaque dos grandes jornais e das semanais norte-americanas e conquistou o bilhete de entrada para Hollywood.
No entroncamento das vidas dos personagens, fica evidente a relação entre pessoas de realidades sociais, culturais e econômicas muito diferentes. Além disso, Iñárritu faz com que as pessoas dependam uma da outra na narrativa. Nesse momento, o diretor consegue fazer com que nos sintamos angustiados assistindo o filme, refletindo sobre quando precisaremos de alguém que não conhecemos.

Filme: 21 gramas (Alejandro Gonzáles Iñárritu)

No ano seguinte de Amores Brutos, o diretor fez 21 Gramas, filme que se passa nos Estados Unidos e segue o mesmo padrão do primeiro: três histórias, que se encontram em determinado momento, e provocam reflexões sobre a perda e sobre os relacionamentos. Desta vez, os atores são todos americanos, incluindo grandes nomes como Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts. A semelhança com o primeiro filme levou Iñárritu a pensar em uma trilogia.

Filme: Babel (Alejandro Gonzáles Iñárritu)


Nele, o diretor vai do México para o mundo. As várias histórias se passam nos Estados Unidos, Marrocos, Japão e México. A produção também foi grandiosa, com um orçamento de 25 milhões de dólares, e atores como Brad Pitt e Cate Blanchett, além da volta de Gael García Bernal, que atuou em Amores Brutos.

Filme: Adeus, minhas concubina (Farewel my concubine)


Na Pequim de 1925, a academia Toda Sorte e Felicidade ensina a arte da interpretação a meninos pobres e sem lar. Um deles, Douzi (Mingwey Ma), é filho de uma prostituta. O garoto Shitou (Yang Fei) o protege e se torna seu amigo. É um lugar com um sistema de aprendizado puxado, dirigido pelo mestre Guan Jinfa (Lu Qi). Por seus traços femininos, Douzi é treinado a fazer papéis de mulher, enquanto Shitou, um tipo mais rude, papéis masculinos. Os anos passam, Douzi e Shitou aprofundam seus estudos e se tornam atores famosos da Ópera de Pequim. Cheng Dieyi (Leslie Cheung) e Duan Xiaolou (Zhang Fengyi), nomes que adotam na vida artística, continuam amigos e interpretam a peça Adeus Minha Concubina . Quando Xiaolou se apaixona pela prostituta Juxiam (Gong Li), a amizade começa a se desfazer e eles param de trabalhar juntos. Não bastasse, o exército japonês invade Pequim, Xiaolou é preso e Juxian pede a ajuda de Dieyi. É o momento para decidir se prevalecerá a amizade de Dieyi e Xiaolou ou o amor de Juxian e Xiaolou.
A fotografia assinada por Changwei Gu é uma verdadeira festa para os olhos, complementada com um belíssimo e bem elaborado figurino e um trabalho de maquiagem perfeito.

Filme: Rescue Dawn - Com Christian Bale

As expectativas são sempre grandes quando se fala num filme de Christian Bale, e ainda maiores quando este tem um ótimo aspecto, e excelentes críticas. Eu sou suspeita prá falar, um de meu atores preferidos, está espetacular nesse papel.
É uma história verídica, sobre Dieter Dengler, um piloto americano que é capturado durante uma missão em Laos, no início da Guerra do Vietnam.

Quando um realizador europeu pega numa história verídica norte-americana, o que podemos esperar? Um intercâmbio de competências. É o que acontece em neste filme bélico "old fashion" brilhantemente escrito e realizado.
Em 1965, o Mundo ainda não sonhava com as proporções que a guerra do Vietname iria assumir dentro de poucos anos. Mas os Estados Unidos já tinham em marcha operações secretas de extermínio de alvos estratégicos, na fronteira com o Laos. O tenente Dieter Dengler só queria voar. Mas na sua primeira missão, a aeronave é alvejada e o militar cai em território inimigo. Aprisionado num campo de concentração feito em bambú, aquele homem obstinado luta pela sua sobrevivência. Até ao fim e nos limites da condição humana.
Imperdível!

Livro: Anna Karenina - Leo Tolstoy

Só um gênio como Tolstói consegue prender alguém a um livrão de 750 páginas escrito há tanto tempo! Sim, ele gasta tempo descrevendo cada detalhe da vida rural de Liêvin e todas as idas e vindas do pensamento de Kitty, mas é delicioso. O legal é que os personagens não são totalmente coerentes, suas resoluções mudam, enfim, como seres humanos normais. Todos são muito verossímeis. Ana vivia relativamente bem com Karênin, mas, quando se apaixona, ele vira um demônio na sua opinião agora tão parcial. Vronski é movido por um amor verdadeiro, mas é cheio de imaturidades, pequenas ambições e irresponsabilidades de um rapaz bonito e boêmio. Liêvin gosta da vida rural, mas não finge um amor que não tem pelo povo do campo, que considera meio bruto e primitivo. Kitty é vaidosa e volúvel, mas seu coração é tão lindo! Adoro eles dois! Como todas as obras de Leon Tolstói, esse livro é extenso e critica a aristocracia com a propriedade de quem faz parte. Anna Karenina conta mais do que a história de uma mulher que se casou por conveniencia. Ele é um retrato da Rússia na epóca de Tolstoi (O livro foi escrito entre 1875 e 1877).
O filme deixa um pouco a desejar mas o livro é uma grande novela psicológica de Tolstoy e retrato da Rússia do século XIX.Depressão, descontrole emocional e muita tristeza, marcam os últimos dias de Anna..comovente...Só se deseja o que ainda não se tem ou o que já se perdeu... Sempre...

Filme: Geração Roubada (Rabbit-Proof fence)

Em 1931, foi criada uma lei na Austrália para a integração dos aborígenes na sociedade branca. Graças a esta famigerada lei, famílias eram separadas e as crianças transportadas para campos de aprendizagem, onde elas eram "civilizadas" e condicionadas a aceitarem seu papel de criadas e subalternas dos brancos.
"Geração Roubada" é a trajetória de três meninas, Molly, Grace e Daisy, que, após terem sido conduzidas a um destes acampamentos, fogem, ambicionando retornar para sua terra natal, distante quase três mil quilômetros de onde elas estavam.
No entanto, esta empreitada não significa apenas um desejo de retorno ao lar, mas sim uma reafirmação de sua própria identidade, um atestado de que elas não precisavam adotar hábitos e cultura alheias porque elas já pertenciam a uma cultura. Somente uma motivação tão visceral e intrínseca justificaria aquela força de vontade que as fazia caminhar, fugir dos perseguidores e passar fome.
Esta produção australiana é tão envolvente, que é impossível deixar de torcer para que as meninas consigam realizar seu intento.
Baseado numa história real (o que torna o filme ainda mais supreendente), "Geração Roubada" é magnifíco; com a participação de Kenneth Branagh, que enriqueceu ainda mais a história, e uma excelente trilha sonora composta por Peter Gabriel.
Não é um filme com muitas peripécias, mas é maravilhoso. Recomendo efusivamente e creio que quem assistir não se arrependerá.

28 agosto 2009

Filme: Mar Adentro (Com Javiér Bardem)

O filme de Alejandro Amenábar é baseado em história verídica, é uma poesia pura e visual, funcionando como um drama imperdível para quem gosta da vida ou para quem precisar reafirmar sua existência. Posso dizer, sem medo de errar, que é uma verdadeira obra de arte. O longa é denso, pesado e consegue sustentar seu ritmo por possuir diálogos afiados e personagens cativantes, o que nos traz a comoção e a preocupação com o destino dos personagens. Mar Adentro levanta questões pesadas sem se preocupar em sentimentalismo barato.
Outros pontos positivos do filme de Amenábar são: a fotografia – existe uma viagem surreal do personagem principal, que me emocionou muito – e a trilha sonora, triste na medida certa. Falar do talento de Javier Bardem, é chover no molhado, por isso prefiro elogiar a atuação de Belen Rueda, como uma advogada doente que quer ajudar o acidentado a resolver seus problemas. Ela está impecável.
A história narra a vida de Ramón (Javier Bardem), um homem que era totalmente saudável, inteligente e viril, até sofrer um acidente e ser obrigado a viver, contra sua vontade, paralisado em uma cama, dependendo da ajuda de seus familiares para todas as suas necessidades básicas. Vinte e seis anos depois, ele consegue uma advogada disposta a ajudá-lo em seu caso. Confrontando questões morais, religiosas e sociais, Ramón tenta legalizar uma petição que lhe dê autorização para cometer eutanásia, sem que nenhuma das pessoas que o ajudarem sejam prejudicadas por suas ações.
Mar Adentro é sensível como os filmes de David Lynch e duro como as produções de Stanely Kubrick. Ou seja, é cinema de verdade. Lola Duenas foi eleito actriz do ano - com toda a justiça - tal como Celso Bugallo e Mabel Rivera venceram os prémios secundários enquanto que o jovem Tamar Novas e Belen Ruedas venceram os prémios revelação.

Filme: Frozen Land (Paha Maa)

“Frozen Land” (“Paha Maa”)baseia-se no conto de Tolstoi “Faux Billet”. Esta referência é feita logo no início do filme, na aula de literatura de Pertti (Pertti Sveholm), um professor que, depois de ser despedido, cai no alcoolismo e, num impulso, expulsa de casa o seu filho Niko (Jasper Pääkkönen). Sob o efeito de drogas e álcool, Niko usa o computador do seu amigo Tuomas (Mikko Leppilampi) para imprimir uma nota de 500 euros. Com ela compra um rádio numa loja de artigos em segunda mão. Aí a nota passa para as mãos de Isto (Mikko Kouki), que é preso quando a tenta usar num restaurante. Isto vinga-se roubando um carro a um negociante de automóveis (Samuli Edelmann), que, por sua vez, confisca, por falta de pagamento, o carro de Teuvo (Sulevi Peltola, magnífico), um alcoólico em recuperação que vende aspiradores porta-a-porta. O destino destas personagens, interligado através de estranhas e trágicas coincidências, irá ainda ligar-se ao de Hannele (Matleena Kuusniemi), uma mulher polícia em plena crise depressiva e do seu marido Antti (Petteri Summanen), professor. “Frozen Land” aborda a teoria do caos, à semelhança de filmes como “Butterfly Effect", em que um simples acontecimento desencadeia uma série de desastres e fatalidades. Numa estrutura de episódios que se misturam, lembrando “21 Grams” de Alejandro González Iñarritu, “Frozen Land” não é exactamente circular, porque não há regresso possível, não há meio de emendar o passado, por muita capacidade de perdão que se possa ter. E porque “Frozen Land” não é um filme sobre o perdão, mas sobre a vingança. A vingança sobre os outros pelo mal que nos sucede. Porque recusamos o arbitrário e porque apenas vemos um lado da história, o ser humano precisa de se libertar do seu mau-estar passando aos outros, e com ele a sua raiva, as suas frustrações, os seus desamores, os seus erros. Com realismo, “Frozen Land” fala de problemas como o desemprego, o alcoolismo, a toxicodependência, a depressão, a violência. Tudo ambientando numa Helsínquia fria.
Um filme negro e triste, para o qual contribui a escuridão do tempo de Inverno, das casas mal iluminadas, dos ambientes lúgubres. Apenas a cena inicial/final se reveste de luminosidade, como se depois de todas as desgraças que acabámos de assistir, aquela fosse a luz da esperança de que a vida tem lago de bom ainda reservado.

Livro: A revolução dos bichos - George Orwell


Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, 'A revolução dos bichos' é uma fábula sobre o poder e sistemas políticos. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, a tomada do poder a utopia de uma sociedade justa. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos.Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram 'A revolução dos bichos' a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.Depois das profundas transformações políticas que mudaram a fisionomia do planeta nas últimas décadas, a pequena obra-prima de Orwell pode ser vista sem o viés ideológico reducionista. Mais de sessenta anos depois de escrita, ela mantém o viço e o brilho de uma alegoria perene sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão dos grandes projetos de revolução política.

Filme: Dançando no escuro - Lars von Trier (Com Björk)


Dançando no Escuro se passa em 1964 e conta a história de Selma, interpretada por Björk, imigrante do Leste Europeu que vai para os Estados Unidos acompanhada de seu filho. Portadora de uma doença hereditária que a deixará cega em pouco tempo, Selma trabalha dia e noite com um só objetivo: poder pagar uma cirurgia para o filho, que sofre do mesmo mal. A paixão por filmes musicais torna-se a única válvula de escape da pobre moça em sua vida tão difícil. A produção intercala o eixo narrativo principal com números musicais, que são devaneios da personagem central. Mesmo em momentos de extrema tensão, Selma se aliena do que está a sua volta e brilha em grandiosos espetáculos imaginários, muito bem realizados pela atriz principal e pelo diretor. As coreografias estão bem feitas e as músicas são primorosas, contando com o toque especial da harmoniosa e pungente voz de Björk.
A cantora está simplesmente perfeita no papel. Encarna a personagem mantendo-se verossímil do começo ao fim, encantando e comovendo o público. Revela-se uma artista completa: além de ter uma voz singular, provou ser uma brilhante atriz, o que lhe rendeu o Globo de Ouro e um prêmio em Cannes. Sem dúvida, merecidos.
A direção de Lars von Trier se priva de tecnologia. O longa-metragem foi filmado
em câmera digital, pelas mãos do próprio diretor. Ainda assim, tem uma bela fotografia, especialmente nas cenas dos espetáculos. Por ser longo e com pouca ação, Dançando no Escuro exige certa paciência do público. É denominado um filme de arte, ou seja, a maioria das pessoas o acha chato. A crítica aos Estados Unidos é clara na película. Selma, que foi para o país em busca de uma solução para seu problema, é explorada e acaba tendo um fim trágico. Poucos não irão se revoltar e se comover com a história, que é triste em um nível não visto em produções hollywoodianas. Trier é impiedoso com a personagem central, assim como a América é com os que se aventuram lá. Uma história imperdível da realidade dura e cruel contrapondo-se à felicidade romântica das fantasias. Bonita obra, que há de ser apreciada pelos adoradores do bom cinema.

Filme: Osama

VENCEDOR GLOBO DE OURO MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Uma menina de 12 anos e a sua mãe perdem os seus empregos quando os Taliban decidem fechar o hospital onde trabalham. Os Taliban proíbem as mulheres de saírem de casa sem uma "companhia legal". Com a morte do seu marido e do seu irmão e ficando sem ninguém para sustentar a família, além de não poder saír de casa, a mãe fica num beco sem saída. Sentindo que não tem outra opção, ela decide disfarçar a sua filha de menino. Sob o nome de OSAMA, a menina embarca numa terrível e confusa viagem em que é preciso impedir a todo o custo que os Taliban descubram a sua verdadeira identidade. Inspirado numa história verídica,"OSAMA" é o primeiro filme inteiramente Afegão rodado desde a ascenção e queda do regime Taliban.

Filme: Sob o efeito da água (Com Cate Blanchett)

Sob o Efeito da Água não é um filme agradável. Traz Cate Blanchett trabalhando como uma gerente de locadora de DVDs em Cabramatta, subúrbio de Sidney que tem o apelido de Little Saigon pela grande quantidade de vietnamitas que moram nele e por ser a capital da heroína na Austrália. A própria personagem de Cate é uma ex-drogada que acaba de sair de uma clínica de desintoxicação. Cate está fascinante, como sempre, no papel da trintona destruída. Seu irmão envolveu-se em um acidente de carro com o ex-namorado (estavam ambos drogados) e perdeu a perna. A mãe vive em uma marcação cerrada. Na tentativa de ter um negócio próprio, pede empréstimos para os bancos locais, mas os bancos negam-lhe crédito por conta do seu currículo. O diretor não poupa nada nem ninguém. Faz quase um documentário sobre a tragédia pessoal dessa família. Entram em cena o melhor amigo da personagem, Hugo Weaving, antiga estrela do futebol hoje completamente viciado – foi ele quem a introduziu na droga – e Sam Neil, como o chefão local do tráfico – ele é casado, mas mantém casos homossexuais com adolescentes, que lhe custará um divórcio escandaloso. Os dois já foram amantes e trocam um beijo logo no início do filme. A Austrália apresentada no filme está bem longe da imagem de único país desenvolvido dos trópicos: suja, viciada e corrompida. A trama resumida acima ainda terá morte por overdose, suborno, roubo, extorsão e assassinato até que termine, tudo filmado precisamente, sem exageros. Tudo parece crível e, por isso, implacável.

Filme: Para sempre Lilya (Lilja 4-ever)


A bela Lilya, de apenas 16 anos, se vê sozinha no mundo quando é deixada pela mãe, que vai viver com o novo marido nos Estados Unidos. No subúrbio de um país da antiga União Soviética, ela passa a viver num pequeno apartamento sem condições de higiene, energia elétrica e aquecimento. Desesperada com sua condição, a adolescente divide seus dias com seu único amigo, Volodya, um garoto de 11 anos. Não demora para que ela apele para a prostituição para ganhar dinheiro. A vida da garota, porém, tem alguma perspectiva de mudança quando ela conhece Andrei. Apaixonada, ela aceita o convite dele para morar na Suécia, arrumar um emprego e começar tudo de novo. Volodya desconfia da rapidez em que as coisas aconteceram e Lilya pode ter uma desagradável surpresa com a mudança. Para Sempre Lilya recebeu uma série de prêmios em festivais internacionais.