31 agosto 2009

Filme: Casa de areia e névoa

Casa de Areia e Névoa” enfoca a batalha de duas pessoas comuns por uma casa. O título do filme é uma beleza de múltiplos sentidos. A casa é de areia e névoa, na metáfora mais óbvia, porque fica na praia de San Francisco, onde a neblina cobre tudo nos dias frios. Mas existe um sentido mais profundo. Areia e névoa são elementos intangíveis, que não se pode possuir, pois escapam entre os dedos. A casa é a chave da narrativa. Ela não passa de um bangalô modesto, mas representa mais do que simples moradia para os dois personagens. Para Kathy, a casa é a única ligação entre ela e a família, que ela tanto ama e que se mantém tão distante. Suas memórias moram lá. Um pedaço de sua alma se vai, quando é obrigada a deixar o lugar.
Para Behrani, é claro, a cabana não evoca nenhum laço afetivo, mas também é um símbolo poderoso. O coronel reformado a elege como o primeiro passo para deixar os subempregos e proporcionar à mulher e ao filho adolescente um padrão de vida mais digno. A vista para o mar, mesmo que longínqua, também lhe traz à memória um passado feliz – a casa de verão da família, que dava para o mar Cáspio. Por isso, Behrani não hesita em gastar alguns milhares de dólares construindo um terraço com vista para o oceano, mesmo sabendo que não vai permanecer o suficiente no lugar para desfrutar dela. os personagens precisam, a todo instante, tomar decisões moralmente difíceis. Aqui, não há vilões ou mocinhos, mas apenas pessoas de carne e osso, com dilemas morais, pessoais e profissionais. O roteiro de Perelman e Shawn Otto é excepcional. O texto conduz a ação sem jamais apelar para o piegas ou recorrer a clichês; os diálogos são ambíguos, serenos e profundos. O cineasta também teve o bom senso de fazer um filme sem malabarismos técnicos, de modo a deixar a platéia 100% envolvida com o drama humano que se desenrola na tela.

Filme: Pelo amor de Deus! (Com Audrey Tatou)

Esta comédia foi protagonizada por Audrey Tautou em 2001, antes dela se tornar famosa mundialmente em O Fabuloso Destino de Amelie Poulain , lançado no mesmo ano, mas com muito maior impacto. O filme narra a divertida história de Michèle, uma garota de 20 anos que está arrasada por ter terminado com seu namorado. É quando ela conhece Francois, um vegetariano e judeu. Apaixonada, Michèle decide converter-se ao judaísmo porque ela tem de acreditar em algo ou pelo menos em alguém. Entre idas e voltas Michele descobre que nem sempre a fé remove montanhas e mantém namoros. Seja com quem for.

Filme: Uma jornada de esperança (Beat the drum)

Uma jornada de esperança sofre, como Tsotsi, de primarismo: personagens só estão ali como representantes rasos de um estrato social (a criança inocente, o negro potencialmente aidético, o branco amigo, o branco insensível), a mensagem é maior do que o filme em si. Edificante, com certeza, mas é o tipo de filme feito para encerrar um seminário de prevenção à AIDS. Prostituição é igual em qualquer beira de estrada do mundo - mas na África do Sul existe o agravante da AIDS. Na vila de Musa, onde qualquer anormalidade é tido como desígnio divino, a doença está presente mas ninguém vê. O fato de haver pessoas que desconhecem a realidade da África do Sul, mesmo dentro do próprio país, é o que justifica a existência de Uma jornada de esperança.

Filme: O preço da vida (Quando Se Nasce, Já Não Pode Mais Se Esconder)

Dirigido pelo italiano Marco Tulio Giordana, "Quando Se Nasce, Já Não Pode Mais Se Esconder" é um drama sóbrio que conta a história de Sandro, um menino rico de 12 anos que acompanha o pai e um amigo num cruzeiro de barco pelo Mediterrâneo. No meio da noite, quando os dois adultos estão distraídos, o garoto cai ao mar e quase se afoga. É resgatado posteriormente por uma embarcação, tornando-se mais um integrante da população de um verdadeiro navio negreiro dos tempos modernos, repleto de imigrantes ilegais de todas as procedências. Gente em busca de uma nova oportunidade que é explorada por europeus e submetida a condições subumanas. Quando finalmente o menino retorna à sua família, procura fazer com que os pais adotem o rapaz que o ajudou e sua irmã. A partir daí, coloca-se o conflito entre os imigrantes e os seus anfitriões, divididos por necessidades muito diferentes. Detalhe importantíssimo no filme abordando a prostituição infantil.

Filme: Batismo de Sangue

São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas.
Batismo de Sangue se tornou um filme obrigatório para aqueles que pretendem conhecer um pouco sobre este sombrio período de nossa história recente. Se vivemos hoje numa democracia, muito devemos a esses jovens idealistas que não tiveram medo de enfrentar seus opressores e lutar pela liberdade. Existem falhas no atual processo democrático, é evidente, mas que todos, principalmente as gerações mais jovens, tenham sempre em mente que a pior das democracias é preferível à melhor das ditaduras.

Filme: Edukators

Não são apenas os personagens Daniel Bruhl e Julia Jentsch de The Edukators (Die Fetten Jahre sind vorbei, Alemanha, 2004) e suas idéias que são jovens. Tudo no filme cheira a juventude. Das imagens em digital, feitas quase inteiramente com uma inquieta câmera na mão, à trilha sonora (a versão de Jeff Buckley para Hallelujah, de Leonard Cohen, "gruda" na cabeça do espectador). As discussões que surgem entre os seqüestradores idealistas e o refém milionário jogam de maneira bastante interessante com o conflito de gerações. O filme é o segundo longa de Hans Weingartner e foi selecionado para competição no Festival de Cannes.
Com um roteiro nada previsível, atuações incomparáveis, trilha sonora rica e com um final espetacular e infalível, Hans Weingartner mostra a força do cinema alemão contemporâneo.
The Edukators, cada um tira sua mensagem, que será provavelmente aquela que lhe for mais cômoda. Para isso, o filme deixa margem a duas interpretações. A primeira, é a de que o tempo passa, os ideais morrem, e as boas idéias e convicções se vão junto com a juventude. A segunda nos lembra, no entanto, que os únicos que podem mudar o mundo são aqueles que realmente acreditam que isto seja possível e tentam fazer alguma coisa a respeito. Qual será a sua forma de interpretar?

Filme: O amor pode dar certo (Griffin & Phoenix)

Griffin (Dermot Mulroney, de O Casamento do Meu Melhor Amigo ) descobre que tem um câncer em estágio terminal. Após um breve instante de perplexidade, ele decide não contar a notícia para ninguém e viver seus últimos momentos com alegria e dignidade, na medida do possível. Griffin conhece a bela Sarah Phoenix (Amanda Peet, de Syriana – A Indústria do Petróleo ), se apaixona por ela e passa a viver um dilema – literalmente – de vida ou morte: ele teria o direito de entrar na vida de uma pessoa, mesmo sabendo que a morte está próxima? Por outro lado, Sarah também tem algo a esconder, o que não deve ser dito aqui para não estragar a história.

30 agosto 2009

Filme: Todo sobre mi madre (Pedro Almodóvar)

Almodóvar elaborou uma homenagem pra lá de especial à tão aprazível relação mãe e filho. Criou uma teia de afeto e agonia mútua, como se o vínculo binário pudesse se estender, como se os laços de sangue não fossem mais obrigatórios. Ao longo de um roteiro tragicômico, distribuiu toda a sorte de mães, de mulheres, de seres humanos. Manuela (Cecilia Roth) é a soma de todas. É ela que, em determinada hora, toma conta das demais personagens como se fossem suas próprias crias, mesmo não sendo. Espantoso imaginar como Pedro Almodóvar, sendo um homem, conseguiu (e consegue) observar tão profundamente a sensibilidade do universo feminino. O travesti Agrado (e até mesmo Lola) servem para demonstrar que, para o autor, a feminilidade está na atitute, transcendendo a questão física.
Agrado (o transformista Antonia San Juan), carrega todos os elementos cômicos do filme praticamente sozinho!

Fiodor Dostoievski - A desgraça do sonhador

E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes... um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honoráveis sentimentos... não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura? E não somos todos mais ou menos sonhadores?
Fiodor Dostoievski, in "Escritos Ocasionais"

29 agosto 2009

Filme: Amor à flor da pele (Wong Kar-Wai)

Amor à Flor da Pele é estupendo. Muitos críticos têm considerado o melhor trabalho de Wong Kar-wai.. Um dos mais proeminentes diretores de Hong Kong, conseguiu criar uma obra delicada e arrebatadora, em que mais uma vez faz, de maneira exemplar, o universal emergir do particular. A obra de Wong Kar-Wai versa sobre uma história de romance não-convencional. E é contada com um enorme cuidado estilístico; a música, a câmera lenta, as mãos ora afastadas ora em intenso afago, a fumaça. Tamanha qualidade estética poderia ser questionada se não caminhasse junto de uma bela história, se não fosse utilizada como aliada na narrativa. Mas não é o caso. Todas essas variáveis se juntam para realizar um produto final de alto nível. A beleza do filme está na maneira como Wong consegue manipular as imagens e os sons, criando uma obra única.

Filme: Antes do anoitecer (Before Sunset)

Nove anos se passaram desde Antes do Amanhecer. Jesse escreveu um livro sobre essa romântica noite há muito distante, ficionalizando as suas memórias num best-seller. Na livraria Shakespeare & Co., última passagem para promover o livro em Paris, Jesse reencontra Celine. Ele vai regressar a Nova Iorque nessa noite e decidem aproveitar ao máximo as poucas horas que podem estar juntos.Numa jornada estimulante e reveladora pelas ruas de Paris, em que falam sobre a globalização e os relações entre pessoas, as memórias e os arrependimentos, Jesse e Celine exploram as profundezas dos seus sentimentos e redescobrem esse raro amor pelo inesperado, o expontâneo e um pelo outro. Eles precisam de saber: o que aconteceu no seu primeiro encontro foi real ou, com a passagem do tempo, apenas idealizado? O que essa noite significou para cada um deles? Que marca deixou o encontro falhado de 16 de Dezembro? O que se passou ao longo dos últimos nove anos? Têm pouco mais de uma hora para o descobrir. Para recuperar o tempo perdido. Para revelarem-se. Para perceber o que podia ter sido. E ver o que acontece.

Filme: Antes do amanhecer (Before Sunrise)

"Antes do amanhecer" é um filme que encanta por ser um romance diferente, apostando não em clichês mas sim numa série de discussões sobre os mais diversos assuntos, que flui muito bem na história. É daqueles filmes que de início você não espera muito, mas que aos poucos e lentamente acaba te conquistando. Vários dos debates levantados no filme são realmente intrigante e te fazem pensar sobre o assunto, mesmo após o término do filme. Além disto Ethan Hawke e Julie Delpy estão muito bem. Um ótimo filme, que diverte e ainda faz pensar e fez pensar... quais as oporunidades que eu ja possa ter perdido... quais eu posso vir a perder, qual eu vou aproveitar...."
Foi um filme apreciado pela crítica, mas pouco visto na sua estreia. Porém, a promessa da juventude, em que duas pessoas estranhas podem deixar um trem, conhecer uma cidade e esperimentar o inesperado numa noite a falar de tudo até perceberem que, afinal, descobriam a sua alma gêmea, tem vindo a ser descoberta pelos espectadores desde então. Um filme descrito pelo seu realizador como "um romance para realistas" deixou, afinal, muitos dos que o viram a fazer uma pergunta: será que eles se reencontraram seis meses mais tarde?

Filme: Jogo de sedução (Dot the I) Com Gael Garcia Bernal


O filme é repleto de boas atuações, Gael García Bernal, cada vez mais consolidado como bom ator, destaque especial para James D’Arcy que deu um show de interpretação, tanto que me deixava com raiva do personagem. A atriz Natalia Verbeke,além de linda também não fez feio. Jogo de Sedução possui uma boa trama, um bom roteiro, e algumas vezes chega a ser tenso, outras da um embrulho no estômago, ora tira boas risadas. O que parece ser um drama romântico acaba se tornando um suspense. E depois um drama. E um suspense novamente. Confuso? Você ainda não viu nada. É perceptível o esforço do diretor estreante Matthew Parkhill em fazer um filme inventivo e surpreendente.

Filme: Um longo dia de noivado ( Com Audrey Tatou)

Jean-Pierre Jeunet volta a trabalhar com Audrey Tautou depois de "O Fabuloso Destino de Amélie". Tal como em Amélie, este filme parece passado numa outra dimensão. É difícil explicar o porquê, mas o mundo dos filmes de Jeunet parece sempre mais vivo, mais vibrante que o mundo real, as suas personagens transbordam energia, e mesmo sendo muitas vezes caricaturadas, são sempre incrivelmente densas e complexas.
Num cenário contrastante, a 1ª Grande Guerra, Jeunet apresenta-nos a fragilidade e a ternura de uma jovem debilitada fisicamente, em contraste contínuo com as agruras e a agressividade de um conflito em ebulição. Fotograficamente o filme é soberbo, as imagens são impregnadas de uma colorida poesia visual, que paradoxalmente embelezam a atmosfera de uma guerra, que se sabe, devastadora.

Filme: Quero ser John Malkovich

Por mais que se tente resumir a trama de Quero Ser John Malkovich em alguns parágrafos, a tarefa revela-se impossível. O roteiro é tão repleto de revelações e reviravoltas que, em certo momento, as surpresas transformam-se em meros preâmbulos para as seguintes. Em certo momento, para se ter uma idéia, o próprio Malkovich atravessa o portal que conduz para o interior de sua mente - e o que ele vê é uma das melhores seqüências do filme. É realmente impressionante que um roteiro complexo e arrojado como o de Quero Ser John Malkovich tenha encontrado meios de chegar às telas, já que várias coisas poderiam ter dado errado no processo principalmente o excesso de inteligência (sempre um perigo em Hollywood).
O filme mais maluco que eu já vi, resultado de um roteiro totalmente insano e imprevisível, situações absurdas (e hilárias) e atuações igualmente absurdas (e igualmente hilárias). É uma pérola do cinema, um primor de roteiro e originalidade.
Quando você acha que o estoque de loucuras acabou, Spike Jonze descarrega mais um monte, deixando o espectador zonzo de tantas reviravoltas contidas no roteiro. Com certeza, a parte mais hilária do filme é quando John Malkovich entra em sua própria mente, e vê um mundo habitado somente por John Malkovich.
Além de todas essas situações incríveis, o filme ainda dá início à uma inteligente dicussão: e se você pudesse ser outra pessoa?

Filme: El Bufalo de la noche (Guillermo Arriága)

Parte da nova geração mexicana está aqui em ação. Arriaga e Aldana, no roteiro e direção; Diego Luna no elenco.
Gregorio é um jovem esquizofrênico de 22 anos, perdidamente apaixonado por Tania (Liz Gallardo) e que tem em Manuel (Diego Luna) um grande amigo. Enquanto Gregorio entra e sai de hospitais psiquiátricos, Tania e Manuel vivem um romance às escondidas. Quando Tania decide romper com Gregorio e ficar com Manuel, a amizade entre eles também é rompida. Tempos depois os médicos dão alta a Gregorio, o que faz com que Manuel tente se reconciliar com ele. Aparentemente o reencontro ocorre sem problemas, mas dois dias depois Gregorio se suicida, dando um tiro na cabeça. Tânia e Manuel recebem a estranha herança deixada por Gregório, uma caixa contendo fotos e cartas. E que dá início à trip na qual culpa e loucura não deixam de se misturar em coquetel explosivo.

Filme: Quando Nietzsche chorou

Nietzsche, é um dos maiores gênios da história da humanidade, Breuer não foge muito disso e quanto a Freud, bom , isso todo mundo já sabe.
Na Viena do século 19, o médico Josef Breuer (Ben Cross) conhece o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (Armand Assante), pois o intelectual está passando por grave crise de enxaqueca e tem tendência suicida. Como não quer ser ajudado porque seus livros não são reconhecidos e, portanto, não tem dinheiro para pagar o tratamento, os dois fazem um trato. Com ajuda de seu estagiário, o psicanalista Sigmund Freud (Jamie Elman), Josef tenta ajudar e ser ajudado por Nietzsche e utiliza a "terapia através da fala". O filme apresenta uma história dramática, que fará o espectador conhecer mais da psicanálise e, quem sabe, se emocionar pelo mesmo motivo que fez Nietzsche chorar.

Filme: Vênus

Girl put your records on de Corine Bailey Rae é o carro chefe da trilha sonora do filme. O diretor Roger Michell dá dignidade ao tema, que poderia descambar para o mau gosto nas mãos de um cineasta menos sutil. E como já é costume nas produções britânicas, o desempenho do elenco é um capítulo à parte, com destaque para Peter O'Toole, que faz a platéia acreditar que ele tenha muito mais que seus atuais 74 anos. Não por acaso, o papel rendeu ao veterano ator Peter O’Toole sua oitava indicação ao Oscar. Ele é a alma do filme, tudo dele parte e tudo para ele converge. Mas a garota indesejada por todos - e só querida por ele, para quem tudo está indo para o fim - também é vivida por uma excelente atriz jovem, Jodie Whitaker. E a presença de Vanessa Redgrave como a ex-mulher de Maurice torna o filme ainda mais pungente, mostrando-a também idosa, mas magnífica. É para guardar nas retinas a imagem de o´Toole e Philips dançando na igreja. E a cena em que a garota autoriza que ele toque ao menos a sua mão. E de cenas sensíveis assim o filme está repleto. Vale a pena conhecer esse belo trabalho do diretor Roger Mitchell. Vênus é um filme comovente por tratar da velhice sem máscaras. O clichê de que juventude é um estado de espírito é desmentido pelo realismo do filme, que, a despeito disso, não é cruel. Ao contrário - é um filme carinhoso, que jamais deixa de tratar com dignidade e compaixão seus personagens, uma dignidade e uma compaixão que não exclui os aspectos terríveis, as dores, as mazelas dos idosos. Vemos Peter o´Toole como Maurice e Leslie Philips como Ian no auge de seu talento. Podemos estar vendo-os pela última vez, devido à idade em que se encontram, mas nada disso impede que os vejamos como verdadeiros símbolos da melhor arte dramática inglesa.

Filme: Desejos de liberdade (Provoked)

Uma bola de neve de tragédias vai acertar em cheio a vida de Kiranjit Ahluwalia. Ao se casar com Deepak, ela imagina ter encontrado o homem de sua vida. Mas ele, aos poucos, começa a mudar de comportamento, dedicando-se à bebida e a outras mulheres. Não demora para começar a espancar a esposa, que acaba por matá-lo. Acusada de ter premeditado o crime, ela terá de recorrer à ajuda de uma Ong especializada em vítimas de violência doméstica, para provar inocência. Em momento algum o filme absolve Kiranjit de ter matado seu marido, apenas abraça as inúmeras mulheres que sofrem com a violência de homens que juraram amor eterno. Já no final, Kiranjit diz que são as mães quem criam seus filhos, então cabe a elas ensinar o respeito às mulheres. A mãe de Deepak testemunhou os ataques do filho, mas em julgamento, desmentiu as acusações da nora.
Apesar da história forte, Provoked é um filme mediano. Assemelha-se muito aos filmes feitos para a televisão. Alguns diálogos são artificiais, há redundância em certas cenas e sempre foca os grandes olhos verdes de Aishwarya (o que não é tão ruim assim), contudo vale assistir. Seja por ser um relato inspirador, seja para nos lembrar que alguém próximo pode estar sofrendo as mesmas coisas.

Filme: Amores Brutos (Alejandro Gonzáles Iñárritu)

Amores Brutos iniciou uma trilogia de brilho e confirma a hipótese de que raros são os mestres que conseguem repetir a grandiosidade da obra-prima. Alejandro Gonzáles Iñárritu é um cineasta mexicano de 45 anos. Foi descoberto em 2000, com a produção de Amores Brutos (Amores Perros), um filme – com o perdão da simplificação – sobre a perda, os amores, a esperança e os problemas nos relacionamentos. O sucesso surpreendeu: era uma produção latina, com atores latinos e recursos latinos e, ainda assim, ganhou a crítica e o público internacional. A partir daí, Iñárritu virou destaque dos grandes jornais e das semanais norte-americanas e conquistou o bilhete de entrada para Hollywood.
No entroncamento das vidas dos personagens, fica evidente a relação entre pessoas de realidades sociais, culturais e econômicas muito diferentes. Além disso, Iñárritu faz com que as pessoas dependam uma da outra na narrativa. Nesse momento, o diretor consegue fazer com que nos sintamos angustiados assistindo o filme, refletindo sobre quando precisaremos de alguém que não conhecemos.