27 agosto 2009

Fime: O Invasor

É uma aquisição obrigatória para quem gosta de cinema nacional e para quem busca uma história bem contada, com linguagem e forma diferentes daquelas encontradas no cinemão americano. Brant fez um filme violento, mas sem mostrar uma cena sequer de sangue ou tiro. O que é violento em O Invasor é sua linguagem, a montagem composta basicamente de planos-sequência e a câmera no ombro, sempre em movimento. Participação do rapper Sabotage e atuação impecável de Paulo Miklos e Mariana Ximenes.

Filme: Intacto



E se a sorte fosse uma coisa palpável, um dom que se pode aprimorar, como a escrita e a fala? Ou o conceito de sorte é apenas a cética série de coincidências movidas por uma fé cega? É sobre estes questionamentos que se trata o filme INTACTO, uma produção espanhola de 2001, um intrigante exercício de suspense e tensão que joga o espectador para o centro de um jogo diferente onde o destino é o personagem principal. Federico (Eusebio Poncela de OLHOS MORTAIS) trabalha em um cassino que fica isolado do mundo, neste cassino as apostas são altas e quando alguma pessoa começa a ganhar mais vezes do que deveria seus serviços são necessários. Só que o ofício de Frederico não é matar os vencedores ou trapacear para que percam o dinheiro, mas simplesmente tocar nelas. Acontece que Frederico tem um raro dom, ou uma maldição, que consiste em "drenar" a sorte das pessoas. Estranho dizer desta forma, trabalhar com o conceito de que um atributo como a sorte pode ser trocada, tirada ou transferida, mas a medida que a trama se desenrola isto acaba ficando perfeitamente plausível. E mesmo que ao final da projeção você não goste do resultado, deve, pelo menos, admirar a tentativa de se fazer algo diferente. O filme foi muito aclamado pela critica que foi exibido com sucesso em diversos festivais de cinema e arrebatou vários prêmios. Colocando em poucas palavras, sendo totalmente fora do convencional, INTACTO fez sucesso por suas próprias qualidades e não tem nada de sorte nisso.

Filme: O passado (El Pasado)

O filme é baseado no livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls, e dirigido pelo meio-argentino, meio-brasileiro Hector Babenco. A história tenta nos mostrar a diferença entre um homem e uma mulher diante de um mesmo conflito, a separação. Ele a mantém a salvo em algum lugar, tentando, no entanto, caminhar numa direção diferente até que tudo se acalme. E ela não consegue se desvencilhar, encontrando Rímini até em um alemão e correndo contra tudo para trazê-lo de volta.
Segundo Babenco, o próprio Alan Pauls o chamou de louco por acreditar que o livro fosse intransponível para o cinema, por se tratar de uma história composta mais por divagações e silêncios, do que por ações. Mas não foi o que pareceu. A trama parece bem roteirizada, sem nos dar aquela impressão de que os fatos vão sendo mostrados como num videoclipe, para que um romance de 480 páginas caiba em duas horas de filme. Tudo transcorre sem nos assustar.
Boa mesmo é a Analía. Atriz argentina com 15 anos de experiência em teatro, ela está muito bem no papel da apegada Sofia, alternando suavidade, tensão e loucura de maneira competente. Legal mesmo é ver Babenco numa ponta como projetista de um cinema, pois isso deve ser uma referência à sua própria juventude onde, como ele mesmo disse, encontrava refúgio para seu deslocamento social entre os clássicos estrangeiros, aproveitando também para conhecer novas culturas de uma maneira agradabilíssima.

Ernest Becker: A negação da morte

Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível. Um dilema torturante. Louco, porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição, que são formas de loucura. Loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira "loucura"...

Filme: A vida dos outros (Das leben der Anderen)


A Vida dos Outros, escrito e dirigido pelo cineasta estreante, Florian Henckel Von Donnesmarck, Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira de 2007, além de outras inúmeras premiações, mostra, numa linguagem contundente, mas de excepcional qualidade, como um governo autoritário - o da extinta República Democrática Alemã - procurava assegurar o poder mediante cruel sistema de controle e vigilância sobre seus cidadãos, principalmente os da classe artística.Diferentemente do que ocorria em Adeus, Lênin, de Wolfgang Becker, o filme de Florian Donnesmarck reconstitui Berlim Oriental, em 1984 – cinco anos antes da queda do muro - como de fato era, para quem a conheceu, uma cidade sombria e misteriosa. Por isso, há de se destacar, em primeiro lugar, a qualidade da fotografia, monocromática, de Hagen Bodanski, pela qual o cineasta estreante compõe planos com a maestria e o estilo de um competente veterano.Também o roteiro, elaborado por Donnesmarck com apoio em pesquisas feitas nos arquivos públicos e nas bibliotecas, é perfeito nos mínimos detalhes, uma vez que sabe caracterizar, desde o início, como thriller político, um argumento que trata, na verdade, da evolução de um indivíduo, de uma personalidade, num meio adverso. Pois de fato o núcleo dramático está centrado na figura do agente da Stasi ( polícia secreta da Alemanha Oriental), Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), o qual, já no prólogo, explica aos seus alunos, o infalível método de inquirição por ele desenvolvido para obter confissões de pessoas que conspiram contra o regime.

Filme: Trilhos do desino (Rails & Ties)

Alisson Eastwood, filha de Clint Eastwood, tem sua estréia na direção cinematográfica com este drama intitulado aqui no Brasil de "Trilhos do Destino". A cria do "Clintão" apresenta em sua condução das câmeras uma postura semelhante a de seu pai, a simplicidade na narrativa e o forte apelo emocional dos dramas de seus personagens. Pena que não conte com uma trilha sonora tão marcante quanto as composições empregadas nos filmes de Clint Eastwood, já que o elemento mais irritante e destruidor deste filme é a insuportável trilha de Kyle Eastwood(também filho do Clint) e Michael Stevens.A trama é bastante previsível e é inegável que tenha sido criada para levar o público aos prantos: Megan é uma mulher em estágio avançado de um câncer passa a cuidar de um garoto que acaba de perder sua mãe, vítima de um "acidente" envolvendo um trem conduzido pelo esposo de Megan. Até aí nada demais, existem uma série de filmes com a roupagem de melodrama, mas que acabam desviando-se de caminhos óbvios e se tornam verdadeiras obras-primas. Mas em "Trilhos do Destino", a trilha de Eastwood e Stevens acaba antecipando momentos dramáticos, nunca entrando em harmonia com o que de fato acontece em cena.O melhor aspecto deste filme, e é neste ponto que Alisson Eastwood apresenta sua competência diante das câmeras, é o desempenho formidável de seu elenco. Eastwood conduz seus intérpretes de maneira exemplar, arrancando uma atuação intensa de Marcia Gay Harden e de seu parceiro Kevin Bacon. Devo assumir, que Gay Harden obtém uma ligeira vantagem com relação a seu colega de elenco. Na pele de Megan, Gay Harden demonstra uma sensibilidade rara para apresentar a condição de sua personagem. O filme ainda traz uma revelação, o jovem ator Miles Heizer, que interpreta o garoto que acaba sendo "adotado" pelo casal principal, o garoto demonstra uma maturidade única em sua performance.Alisson Eastwood faz uma estréia na direção envolvente e sincera em "Trilhos do Destino". É verdade que a diretora iniciante acaba sendo sabotada por elementos externos, mas não há como negar a qualidade do desempenho do elenco deste filme que consegue ser sincero nos propósitos e dramas de seus personagens, ainda que seu roteiro, escrito por Micky Levy, acabe caindo em obviedades, o que não chega a ser um ponto negativo em "Trilhos do Destino". Quem sabe Eastwood não consiga um cinco estrelas da próxima vez?

Edvard Munch


Filme: Bem me quer,mal me quer (A la folie..pas du tou)

Em Bordeaux, Angélique (Audrey Tatou), uma estudante de Belas Artes, parece ter tudo na vida: juventude, beleza e uma promissora carreira como artista plástica. Mas ela só tem olhos para o amor. É que ela desenvolveu uma paixão desmedida pelo Dr. Loïc, um médico cardiologista de renome, de 35 anos, casado e prestes a ser pai.
A despeito de tudo o que seus amigos lhe dizem e de diversos acontecimentos que provam o contrário, Angélique persiste na idéia de que Loïc também a ama, transformando o que de início parecia ser um desencontro amoroso em uma perigosa obsessão, pois cada vez mais ela tem como certo que um dias eles irão se casar.
"Bem-me-quer... Mal-me-quer" é uma ótima comédia dramática, muito bem conduzida pela diretora Laetitia Colombani, que também co-assina o roteiro. O filme é basicamente dividido em duas partes: inicialmente, Colombani apresenta a versão de Angélique sobre os fatos; em seguida, a história é recontada sob a ótica do Dr. Le Garrec. Esse tipo de narração parece extremamente eficaz, num fascinante exemplo de como contar uma história, proporcionando uma inesperada reviravolta.
Além dos ótimos roteiro e direção, "Bem-me-quer... Mal-me-quer" apresenta ainda uma bela fotografia, assinada por Pierre Aïm, e excelentes interpretações, com destaque para a atuação de Audrey Tautou.

Filme: Vermelho como o céu (Rosso com il cielo)


Filme baseado na história real de Mirco Mencacci, um garoto apaixonado por cinema que perde a visão aos dez anos de idade e é mandado para uma escola para crianças especiais. Mesmo sob a tutela rígida de religiosos que não aceitam a criatividade do garoto, ele batalha contra sua condição, desenvolvendo-se como um habilidoso editor de sons através de um velho gravador e rolos de fita usados. Suas criações e a influência sobre seus colegas causam a expulsão de Mirco, que move uma cidade durante os movimentos políticos que mudaram a Itália da década de 70. Hoje, Mirco é um dos mais famosos editores de som da indústria italiana.
Ah, essas histórias de superação (verídicas, ainda por cima) sempre cheiram a pieguice. Por sorte, não é o caso. Vermelho como o Céu, de Cristiano Bortone, evita qualquer apelação lacrimogênea e o resultado é que, por isso mesmo, alcança, em sua simplicidade e sinceridade, aquilo que se pode chamar de uma emoção verdadeira. Isto é, não resultante de recursos apelativos.
Passou pelo crivo do público exigente porque sabe dosar seus elementos dramáticos com senso de economia e trata seu personagem principal de maneira amorosa, porém sem complacência. Entra na história um dado tão cruel como interessante - na Itália daquela época, as crianças portadoras de deficiência visual eram obrigadas a estudar em escolas especialmente destinadas a elas, o que equivale a dizer que eram segregadas. É o destino de Mirco, que será transferido para um colégio para cegos em Gênova.

Filme: Hable con ella (Pedro Almodóvar)

Posso dizer , com toda sinceridade , que "Fale com Ela" é um dos melhores filmes "não norte-americano" que já assistí em minha vida , se não for o melhor. É também a melhor obra de Almodóvar , sem sombra de dúvidas , e uma das maiores realizações do cinema europeu. A estória gira em torno de dois homens , Benigno (Javier Cámara) , um enfermeiro , e Marco Zulonga (Darío Grandinetti) , um jornalista. A princípio , essas duas pessoas não têm nada a ver uma com a outra , mas quando a toureira profissional , e namorada de Marco , Lydia (Rosario Flores) entra em coma após ser ferida na arena , os destinos desses dois homens irão se cruzar. Benigno cuida de uma jovem chamada Alicia (Leonor Watling) , também em coma , e é completamente apaixonado por ela. Por isso , a trata como se estivesse "normal" , como se ela ouvisse-o e entendesse-o. Ao ver Marco em situação parecida , o enfermeiro passa a incentivá-lo a fazer o mesmo , a falar com ela. Daí o título do filme. A trama parece simples , mas não é. Ao que vai se desenvolvendo , vai ganhando contornos inesperados , bem ao estilo de Almodávar. E esse cineasta mostra mais uma vez todo seu talento e competância ao conduzir brilhantemente a estória , nunca apelando para clichês e nunca se tornando previsível. Pedro também volta a mostrar uma incrível capacidade para dirigir atores. A dupla central tem uma química impressionante. Rosario Flores aparece com uma personagem imponente , mas ao mesmo tempo frágil (como pode ser constatado na cena da cobra na cozinha de sua casa). Leonor Watling é de uma beleza e pureza invejável. Há ainda a sempre competente Geraldine Chaplin (filha de Charles Chaplin), a belíssima participação de Caetano Veloso e espetáculo de Pina Bausch. Resumindo , "Fale com Ela" é um filme imperdível , uma realização genial , uma verdadeira obra-prima. Recomendável para todos , fãs e não-fãs de Pedro Almodóvar. Afinal , quem não gostar do filme em si , ao menos poderá curtir um delicioso curta-metragem mudo , que Pedro insere de forma brilhante no filme."

Filme: Corra Lola, Corra!


Filme alemão do ano de 1998 lançou uma tendência que foi aproveitada posteriormente pelo cinema americano: a de contar a mesma história com diferentes desenlaces. Lola precisa correr e salvar a vida do namorado Manni. As teorias que envolvem tempo ou mesmo a alteração de uma verdade foram questionadas em filmes extremamente hollywoodianos como “Efeito Borboleta”, onde é possível se mudar uma história várias vezes. É o que acontece no filme “Corra, Lola, corra”, do ano de 1998, onde Lola (Franka Potente), precisa mudar sua história várias vezes para salvar a vida de seu namorado Manni.
Feito de forma diferente dos filmes tradicionais alemães, a ação consiste no fato de que a personagem passa o filme inteiro correndo. Lola é uma filha de banqueiro que leva um estilo de vida descolado com seu namorado, que trabalha para a máfia. Tudo acontece quando Manni esquece uma bolsa contendo cem mil marcos (moeda alemã) no metrô. Nesse instante, começa a sua corrida, para evitar que seu namorado seja morto pelo seu chefe mafioso. Essa busca desemboca em três diferentes acontecimentos.
A história é contada três vezes, e sempre que Lola fracassa na busca pelo dinheiro (primeiro pedindo ao seu pai, que recusa, depois procurando pela cidade), retorna ao início, e a heroína parece sempre aprender algo de novo. Toda a história monta uma identidade renovada e incomum. Regado por música eletrônica de uma forma que envolve o espectador, o filme também conta com alguns trechos de animação para ilustrar alguns pontos da saga de Lola, que tem os cabelos magnificamente tingidos de vermelho vivo. Em 20 minutos, se ela não correr, Manni irá morrer.
O pensamento de “e se eu tivesse feito tal coisa?” praticamente é a constante, pois Lola volta sempre no tempo, em busca da solução. Entre uma parte e outra, novos detalhes são acrescentados ou retirados. A busca pelo dinheiro é a maior meta da garota, e ela tem apenas 20 minutos para fazer isso. Confronta a tudo e a todos, e também seu maior inimigo: o tempo. Corra, Lola, Corra ganhou alguns prêmios internacionais, como o de Melhor Filme Estrangeiro pelo Independent Spirit Awards. É um filme de tirar o fôlego somente pela personagem principal passar grande parte dele correndo, desesperada, atrás de uma resolução para o grande problema. Os diálogos são rápidos e curtos, e brincam com a idéia de que justamente Lola não tem tempo a perder. O desespero de Lola, e o modo genial como a história é contada, mais a trilha sonora bate-estaca intensa, faz com que o roteiro não seja cansativo, mas sim, arrebatador.

Auguste Rodin - O pensador

O Pensador (francês: Le Penseur) é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin. Retrata um homem em meditação soberba lutando com uma poderosa força interna.Originalmente chamado de O Poeta, a peça era parte de uma comissão do Museu de Arte Decorativa em Paris para criar um portal monumental baseada na Divina Comédia, de Dante Alighieri. Cada uma das estátuas na peça representavam um dos personagens principais do poema épico. O Pensador originalmente procurava retratar Dante em frente dos Portões do Inferno, ponderando seu grande poema. A escultura está nua porque Rodin queria uma figura heróica à la Michelangelo para representar o pensamento assim como a poesia.

Filme: Unidos pelo sangue (3 Needles)

Numa região rural da China, Jin Ping viaja entre pequenas cidades e vilarejos pagando uma quantia em dinheiro a pessoas dispostas a doar sangue. Ela diz que seu negócio é legal, porém revende seu produto no mercado negro. Ao mesmo tempo, em outro canto do mundo, a jovem noviça Clara parte numa missão num local muito pobre da África, no qual as pessoas têm péssimas condições de saúde e saneamento. Já no Canadá, um ator pornô tenta fingir que não é soropositivo para continuar seu trabalho e sustentar a família. Estes três personagens estão Unidos pelo Sangue em histórias sobre a Aids.Produzido no Canadá, o filme expõe os riscos de contaminação da Aids que ocorrem no mundo. A maioria das pessoas que participou das filmagens na África nunca teve contato com o cinema na vida. Entre os figurantes contratados lá, os analfabetos somavam 95%.

Filme: 13 visões (Thirteen Conversations About One Thing)

Treze Visões relata cinco histórias contemporâneas, explorando o impacto dramático que as pessoas exercem umas sobre as outras. Uma narrativa cuidadosamente construída ultrapassando o tempo, mostrando um olhar incomum do passado, presente e futuro de cada personagem. As idéias são colocadas de uma forma intrigante e realista do dia-a-dia das pessoas. Talvez o destino seja um produto das escolhas que fazemos, do significado da verdadeira felicidade, da noção de carma, do eterno poder da esperança, que de alguma forma atingem com grande relevância esse mundo cada vez mais frenético e deslocado. Uma lição de vida passada em treze visões, com treze versões diferentes, mas com um único objetivo em comum: há sempre uma luz no fim do túnel, ainda que não possamos vê-la. Com Matthew McConaughey, John Turturro e Alan Arkin e muito mais...

Filme: Filhos do Paraíso (Children of heaven)

Sempre que me pedem sugestão de um filme, indico Filhos do Paraíso, belíssimo vídeo iraniano do diretor Majid Majidi, que em 1999, juntamente com Central do Brasil, de Walter Salles Jr. e A vida é bela, de Roberto Benigni, disputaram o Oscar de melhor filme estrangeiro, sendo vencedor o filme italiano, da distribuidora norte-americana Miramax. Nada contra o filme de Benigni, que é uma delirante fantasia. Contudo, apesar de ser também escritor de ficção, creio que coisa mais fantástica que a realidade não há. O filme iraniano é inspirado num fato real: dois irmãos (menino e menina) têm que dividir o mesmo par de tênis velho para irem à escola, visto que o menino, logo no início da película, perde o surrado par de sapatos da irmã, este recém vindo do conserto. Ou melhor, deixa num canto, enquanto compra legumes pro almoço,e um catador de lixo, vendo o péssimo estado dos mesmos, cr~e que tinha sido largado na rua, como lixo. A partir daí, o irmão começa a dividir seu par de tênis com a irmã menor, que estuda pela manhã e ele a aguarda chegar, para calçar o mesmo par e ir correndo para a escola, no turno da tarde. O diretor da escola, vendo apenas a "ponta do iceberg" começa a ameaçar o menino de expulsão se continuar com os seguidos atrasos, mas é um professor de educação física que vê no aluno um talento natural para o esporte. Nesse corre-corre e troca-troca, o jovem acaba se destacando por sua velocidade e é inscrito numa corrida, onde o 3º lugar é justo um par de tênis novos - para os dois irmãos, muito melhor que os primeiros lugares: viagem à colônia de férias, que eles jamais tinham ido também. Cruel dilema, que não conto o final, evidentemente, para que todos vejam o filme.História tocante, simples e bem contada, mostrando outra faceta do povo iraniano, que comumente têm sua imagem associada, na cultura ocidental, ao fanatismo religioso, terrorismo e a opressão. Por sinal, nesse jogo de sinuca mundial, o Irã, por "suspeitas" de ter a bomba atômica, parece ser a “bola da vez” da máquina de guerra do Tio Sam.

Livro: A distância entre nós - Thrity Umrigar

A distância entre nós, de Thrity Umrigar, é ambientalizado em Bombaim, na Índia, nos dias atuais. O livro conta a história de Bhima e Serabai, oscilando entre flashbacks e narração em tempo real, o que amarra o leitor a cada capítulo e praticamente o força a prosseguir a leitura sem parar. Bhima é uma mulher pobre, analfabeta e ignorante, que, durante toda a sua vida, limpou casas, lavou louças e perdeu quem amava. Serabai é a patroa. Sendo filha de cientista, é uma mulher culta e instruída, mas que deixou que sua vida se perdesse nas mãos de um marido violento e de uma sogra maléfica. A autora construiu um drama previsível e, sem nenhum pudor, fugiu de dar um final à história, mas leva a narração de maneira tão penetrante e com descrições tão sutis e leves que a sinopse está absolutamente certa quando afirma “você não conseguirá parar de lê-lo, e não será o mesmo quando alcançar a última página”.

Teatro: O sonho - August Strindberg- Peça simplesmente maravilhosa!

A peça conta a história de Inês, filha do deus Indra, que se perde e desce à Terra para experimentar a existência humana. Em sua passagem pela vida, a deusa questiona os homens sobre seu modo viciado e acomodado de viver.As personagens e suas ações distorcem a noção de tempo e espaço, enfatizando a idéia de que o mundo e a realidade são mera ilusão.Em abril de 1907, O Sonho foi encenado pela primeira vez. A peça começou a ser escrita no outono de 1901, quando Strindberg casou-se com Harried Bosse. Pouco tempo depois Harried o abandonou, levando consigo o sonho da felicidade matrimonial. Sofrendo sozinho por quarenta dias, Strindberg concluiu que a vida é uma ilusão na qual se é incapaz de realizar os sonhos. A peça foi concluída no final desse mesmo ano. O título, A Dream Play, traduzido como O Sonho, também pode ser entendido como “Uma Peça de Sonho” ou “Uma peça que sonhei”, isto é, o drama que o autor idealizou. Strindberg, inclusive, refere-se à obra como “minha peça mais querida, filha de minha melhor dor”. O tema inicial da peça girava em torno da história de um homem que esperava por sua noiva num teatro. A espera era em vão, pois ela nunca chegaria. O foco, porém, passou para o que antes era apenas um “sub-enredo”: a personagem principal agora era a filha de Indra, que veio à terra para compartilhar as agonias da existência humana. O Sonho é talvez o primeiro drama a conter o universo onírico como realidade, como gênero em si. Peças tradicionais já haviam incorporado cenas ilustrando sonhos ou pesadelos, mas nenhuma se baseou inteiramente nisso. Deste modo, Strindberg abandonou a percepção convencional de tempo e espaço.Segundo suas próprias palavras, “o autor atentou para a figura inconseqüente do sonho. Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. Tempo e lugar não existem; numa base insignificante de realidade, a imaginação gira, modelando novos padrões; há a mistura de memórias, experiências, livres fantasias, incongruitudes e improvisações. As personagens se duplicam, se multiplicam, se separam, evaporam, condensam, dispersam, reúnem. Mas uma percepção governa sobre todas elas : para o sonhador não há segredos, escrúpulos, leis. O sonho não absolve ou justifica condenações, somente as relata. Tal como no sonho é mais freqüente o sofrimento que a felicidade, esse conto bruxuleante é acompanhado de uma dose de melancolia e compaixão por todos os seres humanos.”À frente de seu tempo, Strindberg baseava-se em filosofias orientais para justificar sua crença de que o mundo é apenas ilusão. Estreando “O sonho” no teatro, o autor fez algumas anotações em seu diário. De acordo com elas, “ o amor é um pecado e sua dor é o melhor inferno que existe. Se o mundo existe, existe através do pecado (do amor, das relações carnais, de Maya), e por isso é apenas um sonho, uma ilusão. Assim se justifica a minha peça do sonho (“my dream play”) ser uma fotografia da vida. Esse mundo, o sonho, é um fantasma cuja destruição é a missão dos ascetas (aqueles que negaram a carne e vivem do espírito). Mas tal missão entra em conflito com o instinto do amor, que oscila entre a sensualidade e o sofrimento trazido pelo remorso (a culpa cristã que também se instalou nos ascetas). Isso me parece a resposta para o enigma da vida...

Filme: A vida de Brian (Monty Phyton)

Paródia bíblica, em que Brian (nascido no dia de Natal e membro de um grupo separatista anti-domínio romano) é considerado Messias e não consegue convencer ninguém de que não o é. Uma sátira social e religiosa, cheia do humor que caracteriza os Monty Python: non sense e crítico...

Filme: O Homem Elefante (David Lynch)


David Lynch deve sua carreira ao homem-elefante e Anthony Hopkins deve a sua à David Lynch. Trocadilho bobo a parte, Lynch faz do filme algo magnífico, elevando-o aos mais altos pilares que um longa pode chegar, lançando-se, a partir de então, como um grande diretor, que posteriormente produziria filmes como "A Estrada Perdida" e "Veludo Azul", entre outros. Hopkins aproveita a chance e brilha tanto quanto o diretor. Com uma atuação convincente e verdadeira. Mas o show ainda estava por vir. E ficou por conta de John Hurt, o ficcional homem-elefante de David Lynch. Absolutamente surreal é como descrevo a interpretação de Hurt. Com uma maquiagem perfeita para época(1980), que nem sequer foi reconhecida pelas principais premiações, Hurt dá um show e aproveita a chance para receber aquela que seria sua única indicação ao Oscar de melhor ator.
O Homem Elefante é um filme imperdivel, dono de 8 indicações ao Oscar, 4 ao Globo de Ouro e 7 ao BAFTA. Uma obra emocionante sobre a ignorância, a inteligência e o carinho que um ser humano pode ter para com o outro.

Filme: Laranja Mecânica (Stanley Kubrick)

As imagens inesquecíveis, a música arrebatadora, e a linguagem fascinante utilizada por Alex e sua gangue, foram moldadas por Kubrick neste conto sobre os caminhos da moralidade. Extremamente controvertido na época de seu lançamento, "Laranja Mecânica" ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York, e recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. O poder de sua arte é tamanha que ainda nos atrai, choca e nos mantém preso em seu domínio. Hoje, a temática do filme é tão atual quanto nos anos 70.

01 setembro 2008

Edvard Munch - O grito (Scream)


Livro: O perfume (Das Parfüm - Patrick Süskind)

História detalhadíssima de Paris, envolvente e bela.
Grenouille, por ter nascido sem cheiro próprio, desenvolve uma técnica de olfato requintado, criando os perfumes mais refinados do mundo. No entanto, o seu trabalho dá uma reviravolta enquanto ele procura a fragrância ideal. Intrigante!

O filme foi rodado em Barcelona e sul da França.
Excelente!

21 julho 2008

Filme: Uma mulher contra Hitler (Sophie Scholl- The final days)

O filme de Marc Rothemund narra os últimos cinco dias de vida da jovem Sophie Scholl: estudante, ativista, membro do grupo de resistência Weisse Rose (Rosa Branca), que lotou caixas de correio principalmente do sul do país com cartas conclamando à resistência ao terror nazista.
A câmera acompanha Sophie aonde quer que ela vá: da cela à sala de Mohr, ao banheiro, ao tribunal, ao último cigarro, à sala de execução. O filme é modelado para Julia Jentsch: é óbvio que ela é a estrela. O que se passa ao lado, durante o interrogatório do irmão, é uma incógnita. A partir do momento em que fica sabendo da confissão do irmão, Sophie deixa de mentir: "Eu fiz tudo... e me orgulho disso".
Isso prova a grande força que o cinema alemão está tomando desde Adeus, Lênin!, Edukators, A Queda e agora “Uma Mulher Contra Hitler”.

Song: Beethoven - Moonlight Sonata

http://www.youtube.com/watch?v=vQVeaIHWWck&mode=related&search=

Song: Claude Debussy - Claire de Lune

http://www.youtube.com/watch?v=LlvUepMa31o&mode=related&search=

Filme: Filhos da Esperança


Filme: Paradise now

O que leva uma pessoa a amarrar explosivos no próprio corpo e detoná-los com o objetivo de destruir o que (ou quem) quer que seja? O verdadeiro tema de Paradise Now, que é a trajetória de homens comuns rumo ao absurdo do ataque suicida. Para isso, acompanhamos toda a cerimônia de preparação de Said e Khaled, que combina elementos religiosos e políticos, como a gravação de mensagens para a família e a imprensa. Neste ponto, Abu-Assad volta a destruir qualquer caráter grandioso que o processo possa apresentar ao incluir pequenos momentos de humor nos quais vemos os protagonistas cometendo erros durante os discursos ou mesmo enviando recados absolutamente prosaicos para os parentes – uma forma interessante de lembrar o espectador de que, apesar do que estão prestes a fazer, aqueles `mártires` são humanos e comuns.

"Miséria na fartura" - Qual o nosso papel? Ilustrando: Portinari

Estão educando aqueles que farão a história do nosso país e a história do mundo?
A nossa revolução tem seus grandes livros, suas grandes obras.
Em cada pensamento, em cada movimento, em cada sopro da nossa vida ressoa a glória do novo cidadão do mundo. Teremos ombros suficientemente fortes para assumir esse enorme peso?
O único objetivo dos nossos esforços só pode ser uma sociedade em que seja abolida toda e qualquer forma de exploração do homem pelo homem.
Liberdade pra ensinar e liberdade pra aprender. Alguém precisa pensar acima da massa!Devemos lutar contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais, contra o desengano, contra o autoritarismo, contra a ordem capitalista vigente que inventou: “a miséria na fartura”.

Geisa Garcia - 2002

15 julho 2008

Filme: Onde os fracos não tem vez (Com Javier Bardem)

É um grande filme, por seu cinismo e qualidades, além de ter um elenco afinadíssimo e um dos melhores vilões de todos os tempos (talvez até um concorrente de Hannibal Lecter). Muitíssimos comentários sobre a interpretação de Javier Bardem. Realmente, o ator espanhol está fantástico no papel do vilão desta história. Sem parecer exagerada – e talvez esteja sendo, um pouco -, mas considero a interpretação dele. No Country for Old Men realmente é muito bom. Reúne as melhores características dos irmãos Coen: roteiro inteligente, frases impagáveis, direção cuidadosa e atenta aos detalhes e às interpretações. Enfim, elementos do bom e velho cinema bem-feito. Exemplo de pontos altos do filme: o diálogo entre Anton Chigurh e o proprietário do posto de gasolina (Gene Jones) no meio do nada. Para um homem que matar é algo tão natural e fácil quando caminhar, algumas vezes a decisão sobre tirar uma vida tem que passar por algum crivo, nem que seja uma moeda. o filme trata de uma caçada humana e, como na Natureza, vence o animal mais forte, mais preparado. Como qualquer história bem escrita, aqui também o espectador fica na dúvida para quem torcer. Afinal, não entra na balança os elementos que movem um ou outro personagem, mas o seu carisma e a sua estratégia de sobrevivência. No fundo, por mais que tenhamos uma idéia de “torcer pelo mais fraco”, muitas vezes aplaudimos justamente quando o forte ganha. Talvez efeito da nossa permanente luta interna entre nosso lado primitivo e nosso lado racional, com critérios e ajustes sociais.

14 maio 2008

Filme: Lanternas Vermelhas ( Raise the red lantern)

Dividido em quatro partes — as estações do ano —, Lanternas Vermelhas apresenta as quatro mulheres, de quatro gerações diferentes, não tanto como esposas, mas sim como concubinas, destinadas a servir o marido num ciclo perpétuo de obediência e humilhação. As estações talvez simbolizem cada uma das quatro personagens: a primeira esposa, fria e pouco solicitada, seria o inverno. A segunda esposa, no outono da vida, luta silenciosamente contra o perecimento de sua fertilidade. A terceira esposa, bela como a primavera, é um poço de exuberância e classe. Songlian (Gong Li), representando o verão, é quente, incipiente, fresca.
Lanternas Vermelhas expõe os sentimentos de vingança, traição e descontentamento em que as mulheres eram diariamente submetidas.

13 maio 2008

Caravaggio - "As sete obras de misericórdia"


Filme: Marcas da guerra (Fateless)

Em Marcas da Guerra um jovem, o húngaro Gyorgy, de 14 anos, terá de antecipar sua maturidade por força das circunstâncias. Sua realidade pacata muda por completo quando, com a explosão da Segunda Guerra, ele é enviado para um campo de concentração. Judeu, ele procura encontrar razões para sorrir mesmo em meio às atrocidades, sonhando em, um dia, retornar a sua Budapeste-natal. Emocionante, chocante, especial prá quem gosta de filmes sobre guerra.

Filme: Santos e Demônios (A Guide to Recognizing Your Saints)

Em Santos e Demônios, o cantor Dito Montiel – estreando, no filme, como roteirista e diretor - faz relato, carregado de sentido de culpa kafkiana pelo fato de haver se ausentado por mais de quinze anos dos pais e dos amigos que o viram crescer num dos bairros periféricos de maior miséria e violência de Nova York, o Astória, no Queens, habitado em sua grande parte por latino-americanos. essa produção de 2006 ganhou vários prêmios, incluindo 2 prêmios no Festival de Veneza, 2 prêmios no Festival de Sundance, 3 prêmios no Independent Spirits Award, além de outros nos mais variados festivais. No elenco estão o talentoso Robert Downing Jr. e a recente estrela Shia Labeouf, em um papel anterior aos sucessos “Paranóia” e “Transformers”.

01 maio 2008

Dança: Sara Baras - Flamenco!



Fernando Pessoa

Pudesse o que penso exprimir e dizer
Cada pensamento oculto e silente,
Levar meu sentir moldado na mente
A ser natural perante o viver;
Pudesse a alma verter, confessar
Os segredos íntimos em meu ser;
Grande eu seria, mas não pude aprender
Uma língua bem, que expresse o pesar.
Assim, dia e noite novo sussurar,
E noite e dia sussurros que vão...
Oh! A palavra ou frase em que atirar
O que penso e sinto, acordando então
O mundo; mas, mudo, não sei cantar,
Mudo como as nuvens antes do trovão.

Livro: A arte da Prudência - Baltasar Gracián

Deve-se começar o fácil como se fosse difícil e o difícil como se fosse fácil...
Assim, não se fica confiante demais nem desanimado.
Não existe nada pior do que dar algo por feito. É o que basta para não fazê-lo.
O esforço torna plano o caminho impossível. Nos momentos mais difíceis não se deve pensar, e sim agir. A visão do perigo paralisa.

Modigliani




Dança: Pina Bausch





















Ela revolucionou o mundo da dança. O “principal produto alemão de exportação“ dança e coreografa em todos os continentes. Mesmo assim, Pina Bausch – altamente talentosa e premiada – se mantém fiel à cidade de Wuppertal. Pina Bausch é uma coreógrafa e dançarina da Alemanha. As coreografias são baseadas nas experiências de vida dos bailarinos e conjuntamente feitas. Várias coreografias são relacionadas a cidades de todo o mundo, pois a coreógrafa retira de suas turnês idéias necessárias para seu trabalho. É diretora da Tanztheater Wuppertal Pina Bausch baseada em Wuppertal. A compania tem um grande repertório de peças originais e viaja regularmente por vários países. Masurca Fogo e Café Müller são os meus espetáculos preferidos.

Livro: A mulher desiludida - Simone de Beauvoir


Inicialmente publicado em 1967, este livro consiste em três contos curtos sobre o tema da vulnerabilidade da mulher, no primeiro, ao processo de envelhecimento, no segundo à solidão, e, no terceiro, à indiferença crescente do ser amado. A mulher desiludida, trás três histórias, cada qual um estudo apaixonado e refinado de uma mulher presa pelas circunstâncias, tentando reconstruir a sua vida. Na primeira história, ‘A idade da discrição’, uma escolástica de sucesso que se aproxima rapidamente da meia-idade enfrenta um choque duplo – o abandono do seu filho da carreira que ela escolheu para ele e a rejeição critica e áspera do seu último trabalho académico. ‘O Monólogo’ é uma história da véspera de Ano Novo de uma mulher solitária, consumida pela amargura e pela solidão depois do marido e do filho a terem deixado. Finalmente, na ‘Mulher destruída’, Simone de Beauvoir conta a história de Monique, tentando desesperadamente ressuscitar a sua vida após o seu marido lhe confessar um caso com uma mulher mais jovem. Compassiva, lúcida, cheia de engenho e sabedoria, a visão de Simone de Beauvoir das desigualdades e complexidades das vidas das mulheres é inultrapassável.

Filme: Little Miss Sunshine


Pequena Miss Sunshine tem muitos momentos engraçados, e o seu clímax catártico, absolutamente surreal, deixa uma sensação boa. A gente sai do cinema mais leve, como se todas as agruras daquelas pessoas fossem intimamente ligadas às nossas, e aquela desforra deles contra o mundo também fosse a nossa. E nisso o filme funciona: ele consegue fazer uma identificação entre o espectador e personagens.




Filme: Munich (Steven Spielberg)

Em 1972 onze atletas israelitas que concorriam nos Jogos Olímpicos de Munique foram tomados como reféns e assassinados por terroristas palestianianos. Munich conta-nos a história do que aconteceu a seguir. Eric Bana capta na perfeição tanto a dureza necessária à vingança, como o desespero que a sucede, no papel mais importante da sua carreira (até então). Destaco também a atenção ao detalhe no guarda-roupa, escolha de locais e até a excelente escolha de automóveis.
É interessantíssimo também destacar a congregação de três fenômenos, abordados brilhantemente nesse projeto cinematográfico: o esporte, a espetacularização dos fatos, e o terrorismo internacional. O link destes três, elementos absolutamente contemporâneos, que caberiam perfeitamente como palavras-chave para entender o século XX, norteia a importância de compreender um fato histórico como o Massacre de Munique.

Filme: A vida é um milagre (Zivot Je Cudo)

Assisti esse filme em Barcelona em Janeiro de 2005 no Cines Renoir. Esse filme me levantou! Drama divertido por assim dizer... Esperança, vida e milagres...Tragédia q vira comédia...
Origem do filme: Iugoslávia / França
Bósnia, 1992. Sérvio de Belgrado, o engenheiro Luka (Slavko Stimac) instala-se em um vilarejo no meio do nada com sua mulher, a cantora lírica Jadranka (Vesna Trivalic), e Milos (Vuk Kostic), o filho adolescente. Luka planeja construir uma estrada de ferro que vai tornar a região um paraíso turístico. Imerso no trabalho e cheio de otimismo, ele permanece surdo à constante ameaça de guerra. Quando o conflito explode, sua vida vira de cabeça para baixo, principalmente depois de a mulher fugir com um músico e o filho ser convocado para o combate.Para piorar a situação, Luka é nomeado pelo exército sérvio como guardião de Sabaha (Vesna Trivalic), uma refém muçulmana por quem acaba se apaixonando. Só que a mulher será usada como moeda no resgate de outro refém: seu filho Milos, mostrando como a vida pode ser irônica. Que poderia ser melhor para um povoado que uma mágica ferrovia para atrair turistas? Que poderia ser pior para o turismo do que a guerra?

Picasso




Filme: Crônica de uma fuga


Crônica de Uma Fuga, de Claudio Tamburrini, testemunha a capacidade argentina de evocar seus anos de ditadura com grande competência e dignidade. No caso, trata-se da adaptação de um livro do próprio Tamburrini, no qual ele narra a terrível experiência de ter sido preso por engano como subversivo e ter passado muito tempo numa sinistra casa de torturas nos arredores de Buenos Aires. Tamburrini era goleiro do Almagro quando alguém, sob tortura, cantou seu nome e ele se viu detido sem direito a defesa. Sofreu o diabo, não tinha o que dizer, o que, nesse tipo de caso, é o pior dos problemas. Tendo outros jovens por companheiros, adaptou-se à rotina do cárcere e ainda teve energia para bolar uma fuga. Crônica de uma Fuga é um drama contundente e claustrofóbico por estar centralizado no casarão onde as torturas acontecem. Hermético, de fotografia escura, o filme incomoda com sua sucessão de sessões de torturas e péssimo tratamento dos prisioneiros. Não que se esperasse algo mais confortável e menos dolorido, no caso. Afinal, fazem com que o espectador sinta incômodo é um dos objetivos da produção, indicada à Palma de Ouro no último Festival de Cannes. Baseado em livro escrito pelo Claudio Tamburrini da vida real, Crônica de uma Fuga tem uma câmera intimista, sem medo de mostrar corpos nus, torturados, em pele e osso, o que ajuda a envolver e emocionar o público. No entanto, a produção não traz muito de novo em se tratando de ditaduras militares e estudantes cheios de esperanças. Afinal, regimes ditatoriais são similares em qualquer parte do mundo. Mas não deixa de ser um recorte contundente desse período obscuro na história argentina.

Filme: O maquinista (Com Christian Bale)


Um filme negro, seriamente inteligente e profundamente inquietante. O Maquinista conta um argumento magnífico, muito bem escrito e estruturado.Mas ainda assim consegue revitalizar-se a si próprio e com distinção. Conta com uma das melhores interpretações alguma vez desempenhadas por um actor: Christian Bale desempenha o papel de Trevor Reznik numa entrega impressionante e assombrosa, para além de muitos limites: uma entrega total.
Bale perdeu uns trinta quilos e aparece realmente mais morto do que vivo. Aliás é impossível ao princípio do filme não ficar de imediato surpreendido pela figura de Bale, ao qual se pode verdadeiramente aplicar a expressão ser de pele e osso. Mas a interpretação de Bale não se resume a esta mudança física radical, o que por si só seria um show-off particularmente inútil. Christian Bale entrou também completamente na mente perturbada de Trevor Reznick, sendo que emagrecer até ao limite foi apenas um meio para possuir a sua personagem. Quem acompanha a carreira do actor não ficará portanto surpreendido por saber que Bale está novamente imperial num papel muito difícil. O olhar, as expressões faciais, a sua forma de estar, tudo está perfeito e, mais importante ainda, esta procura da perfeição por parte do actor está cá, antes de tudo, para servir a história. No final, não há dúvidas que o filme deve muito a performance de Christian Bale, “O Maquinista” não teria metade do seu impacto sem esta inesquecível e assombrosa interpretação.
O filme conta ainda com um excepcional trabalho de fotografia e com uma banda sonora tão doentia quanto a própria história. Em suma: audacioso, surpreendente, psicologica e filosoficamente estimulante. Um grande exercício de cinema.

07 abril 2008

Filme: Azul escuro quase preto (Azul oscuro casi negro)

AzulOscuroCasiNegro ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os prêmios que levou, destaque para os de ator revelação para Quim Gutiérrez, de “novo diretor” para Daniel Sánchez Arévalo e de ator coadjuvante para Antonio de la Torre no Prêmio Goya 2007 – o principal prêmio da cinematografia espanhola. Em outro festival espanhol, o de Málaga, Daniel Sánchez Arévalo levou dois prêmios: melhor roteiro e um prêmio especial do júri. No Festival de Estocolmo, Arévalo levou também o prêmio de “melhor debut de diretor”.
Os atores de AzulOscuroCasiNegro fazem um trabalho muito bom, sem muitos cacoetes ou exageros. Destaco especialmente o trabalho de Quim Gutiérrez (que além de interpretar bem seu papel é muito fofo! e tem apenas 26 aninhos… hehehehehe), Antonio de la Torre, Héctor Colomé (está perfeito em um papel muito difícil de interpretar) e Manuel Morón (gosto deste ator). As atrizes estão bem, ainda que nenhuma das duas me pareçam excepcionais – talvez esteja um pouco melhor Marta Etura.

02 abril 2008

Paint: René Magritte - Les amants


Filme: As horas

Nicole Kidman atua no papel da famosa escritora inglesa Virginia Woolf durante o processo criativo do livro "Mrs. Dalloway" em 1920. Toda a angustia e depressão da novelista são sentidos pelo espectador, e, gracas a um nariz prostético, Kidman está irreconhecível.Juliane Moore é Laura Brown em 1949, uma mulher casada, gravida e infeliz que vive nos anos 50 e esta lendo o livro "Mrs. Dalloway". As transformações que ocorrem com a sua personagem - afetada pelo livro - são crusciais para o desenvolvimento do filme, e infelizmente o porque eu não posso revelar.Meryl Streep atua como Clarissa, nos dias atuais. Uma lésbica que mora em Nova Iorque em 2001 e tem como "tarefa" cuidar de seu amigo (Ed Harris, impecável no papel de um poeta morrendo de AIDS), que a apelidou de Mrs. Dalloway. Revelar o porquê do apelido, mais uma vez, seria estragar algumas das surpresas que o filme guarda.As três histórias são contadas as mesmo tempo, e muito dinâmicamente. De ínicio, o filme pode parecer meio lento, mas o roteiro é tão bem escrito que pelo fim do filme - surpreendente, por sinal - você sente pelos personagens como se você já os conhecesse há anos.


17 março 2008

Filme: A Massai branca

Muitas vezes, fazer um bom filme significa apenas contar uma história bem contada. Se é que a palavra “apenas” pode vir antes da expressão “contar uma história bem contada”. Este é o caso da produção alemã “A Massai Branca”. Os cinéfilos apaixonados, ávidos por inovações na linguagem cinematográfica ou por ousadias técnicas e narrativas, talvez não gostem. Afinal, “A Massai Branca” é “apenas” uma história bem contada. E história real. A partir do livro autobiográfico de Corinne Hofmann, a diretora Hermine Huntgeburth narra de maneira sóbria e cronológica a incrível saga de Carola (Nina Hoss), uma mulher suíça, de classe média alta, que passa as férias no Quênia em companhia do namorado. Tudo transcorre da maneira mais normal possível até o momento em que ela conhece Lemalian (o estreante Jacky Ido, nascido em Burkina-Faso), um belo guerreiro negro da cultura queniana denominada Massai, por quem ela se apaixona louca e imediatamente. O rapaz passa a ser uma obsessão na vida de Carola. A ponto dela abandonar o namorado e se embrenhar pelos mais subdesenvolvidos caminhos africanos em busca de Lemalian.A atração pelos opostos – de forma extrema – é uma das questões básicas levantadas pelo filme “A Massai Branca”. Até que ponto são suportáveis os choques culturais vividos por uma européia branca de formação capitalista e um pastor de cabras africano que habita uma comunidade nas montanhas? Até onde pode chegar a determinação de uma pessoa disposta a abandonar todas as suas raízes por amor? Ou seria apenas uma obsessão? Uma vontade desesperada de mudança?O filme não pretende responder a estas questões irrespondíveis, muito menos criar cinematograficamente em cima do tema. Talvez a opção da diretora pela narrativa mais simples e linear possível seja justamente a de deixar toda a perturbação apenas para a trama em si, que já é por si só enigmática e inacreditável. Mesmo baseado numa história acreditável. De certa forma, esta simplicidade funciona: “A Massai Branca” é um filme que se acompanha com interesse e curiosidade até a última cena... como sempre acontece com as histórias bem contadas.

04 março 2008

FIlme: Irreversível (Com Monica Belucci e Vincent Cassel)

O tão aclamado novo trabalho de Gaspar Noé na direção, destaque no Festival de Cannes em 2002, vem sendo conhecido por ser um dos filmes campeões de afastar as pessoas de dentro dos cinemas. E não só as pessoas desavisadas, que assistem a um filme que é totalmente diferente do que esperavam, o que acontece regularmente; também as pessoas de estômago fraco e que não gostam de violência, ou ao menos não estão preparados para ela de forma tão explícita. Irreversível tem duas cenas especialmente violentas: em uma delas um personagem utiliza um extintor de incêndio para desfigurar totalmente a cara de um homem; noutra, uma mulher é estuprada dentro de um túnel e depois espancada até ficar em coma.
A história em si é simples, e se fosse contada linearmente seria de muito mais fácil entendimento, o que, é bom deixar claro, não é um fator negativo. Mas a edição é primorosa (um dos destaques do filme), e Noé soube dosar bem todas as cenas. As imagens são cruas e tremidas, em boa parte num ritmo nauseante. Recomenda-se estômago forte e mente aberta para assistir ao filme sem se sentir ofendido. No mínimo, Irreversível é uma experiência bastante interessante, pro bem ou pro mal.